terça-feira, 10 de abril de 2007

escravos da escravidão

Eu tomei uma atitude radical no final de um dia conturbado. Cheguei em casa e, ao me dar conta da rotina patética a qual eu estava me submetendo, ao perceber que o sorriso do meu rosto estava escravo do que eu via no meu scrapbook, ou no de outras pessoas, me dei conta da estupidez e da futilidade que serviam de suporte para tudo aquilo. Fui radical, encerrei a minha conta no orkut e ponto. Mas não é tão fácil assim largar um vício. É bem verdade que minhas visitas às páginas das pessoas que me interessam e às comunidades que me despertam curiosidade têm acontecido com uma freqüência muito menor, e que para isso tenho usado o orkut da minha mãe. O que é bem mais emocionante, porque me dá uma sensação de clandestinidade. Sinto-me quase uma espiã.
E foi numa dessas minhas investidas à moda 007 através do orkut da minha mãe que entrei numa comunidade da qual ela era membro. A comunidade tinha fóruns sobre preconceito, num deles existia a seguinte afirmação: todos nós escondemos um preconceito.
É aquela história de sempre né: “onde você esconde o seu preconceito?”. Pois é, pode ser que todos nós tenhamos algum tipo de preconceito, pode ser que exista em algum lugar uma boa alma que não tenha preconceito nenhum. Mas, a final, até o fato de não olhar com bons olhos o preconceito dos outros é uma atitude preconceituosa para com o preconceito alheio. Eita papo brabo, parece conversa de maluco.

Eu queria mesmo era chamar a atenção para esta foto:


Olhe bem para estes dois escravos que carregam a sua senhora numa bela “cadeirinha”. Repare. As roupas dos dois são iguais, a condição de escravo é a mesma para os dois, a função também é a mesma e a senhora é a mesma. O que os torna diferentes é a maneira como cada um veste as roupas, como se portam, a postura de cada um em relação a tal “cadeirinha”, a maneira como cada um encara a sua condição de escravo. O primeiro está de pé à frente da senhora pronto a acatar e executar qualquer ordem por ela dada, tem um semblante de um servo bom e submisso, cabisbaixo, tem o chapéu nas mãos como quem o tira por educação na presença de uma dama. Este parece o típico escravo que se algum dia ganhar a alforria não se incomodará em aceitar uma oferta para continuar trabalhando para aquela mesma senhora e morando naquela mesma casa, isso se ele mesmo não pedir para ficar. Já o escravo da direita é o total oposto do primeiro. A cartola continua impecável sobre a sua cabeça, um de seus braços descansam sobre os “braços” da “cadeirinha, - é como se ele mostrasse que é ele, o ser animado, quem descansa sobre o ser inanimado - e não o contrário, o outro braço está nas “cadeiras”, ou seja, na altura dos quadris, a pose é completada pelas pernas cruzadas, o que inspira um certo ar de malandragem. No conjunto, a posição do escravo da esquerda dá a entender que este é um daqueles cativos que certamente não se prolongarão no cativeiro e que como primeira atitude de homem livre tentará comprar um escravo para ratificar a nova condição, e assim melhor usufruir dela.
Como podemos ver nesta foto, não é a camada social na qual o homem está inserido que determina o seu caráter e as suas atitudes. Pelo contrário, são estas últimas que são capazes de mudar a condição social. É a vontade individual que torna possível qualquer mudança.

3 comentários:

José Roberto Pinto de Góes disse...

Tu é uma mulé muito inteligente. E livre.

Priscilla Santos disse...

Acho que essa foto ilustra bem dois tipo de estratégias: o escravo dócil e o esperto .Ela é perfeita... Mas sou obrigada a dizer que adoro a postura do nosso preto da direita, com aquele ar de "qual é? a foto é pra hoje?", de indolência, indiferença e abuso irrestrito.
Enfim... devo ter alguma inveja secreta dessa senhora.. acho que ela dava uns pegas no negão. Pronto, falei!

Carlos disse...

Para um professor, até que o Zé Roberto escreve um bocado mal.