domingo, 6 de maio de 2007

O Pecado da Cor




"Durante cinco dias, portanto, não há repouso para essa parte ativa de Paris! Entrega-se a movimentos que a fazem curvar-se, inchar-se, emagrecer, empalidecer, esguichar mil jatos de vontade criadora. Depois, o seu prazer, o seu repouso, é uma enfadonha depravação, de pele morena, negra de bofetadas, lívida de embriaguez, ou amarela de indigestão, o que dura apenas dois dias, mas rouba o pão do futuro, a sopa da semana, os vestidos da mulher, os cueiros esfarrapados da criança."

Honoré de Balzac


O trecho acima faz parte do primeiro capítulo de "A Menina dos Olhos de Ouro", escrito por Balzac por volta de 1830, que prima por traçar um panorama da sociedade francesa da época. Não usei Balzac aqui hoje por ocasião das eleições francesas, não. O que me chamou muito a atenção neste trecho foi uma frase em especial: "é uma enfadonha depravação, de pele morena". Balzac compara a conduta lastimável dos parisienses a morenisse.

Não quero aqui endossar o coro do Movimento Negro, longe de mim. Só acho muito interessante as fantasias que a pela preta podiam criar no imaginário de alguns. É como se a maior quantidade de melanina na pele fosse um pressuposto para uma grande dose de sensualidade, depravação, pecado.

É hoje conhecido de todos o poder e a beleza do rebolado da mulata, a malemolência, o furacão nos quadris. O que por muito tempo foi visto como arma do diabo virou dádiva divina.

E esse povo ainda reclama.

Um comentário:

Carlos disse...

A pele morena a que Balzac se refere não tem haver com a descendência negra ou não. Naquela época, o número de negros em Paris devia poder ser contado com os dedos da mão.
O preconceito é de classe social e não de origem racial. Os morenos eram os que trabalhavam expostos ao sol e, que por conseguinte, eram os mais pobres. A cor morena, em oposição a cor branca, refletia uma vida de trabalhos manuais, de tarefas árduas e mal remuneradas.
Os nobres e os grandes burgueses não se expunham ao sol e por conseguinte, eram bem branquinhos, sem nenhum sinal de bronzeamento. O que só vem apoiar a tese defendida por você no texto.
Hoje todos se expõem ao sol e querem ser morenos, coradinhos, coisa que na época chocaria aquelas senhoras branquerrimas, cor de leite. Engraçado, não é?!
PS: viu?! Comentei o seu blog todo. Não há nada que eu não faça pelos amigos...