segunda-feira, 16 de julho de 2007

Luiz Vaz de Camões


Glosa: Composição poética que desenvolve o sentido de um mote dado ou escolhido, e que termina em cada uma de suas estrofes com um dos versos do mote.
Hoje eu estava a ler um livro do José Saramago intitulado "Que farei com este livro?". É uma peça teatral que conta a história de Luiz Vaz (de Camões) quando do seu regresso à Lisboa depois de ter passado dezessete anos na Índia, e dos seus incessantes esforços para publicar o seu livro, Os Lusíadas. Camões voltou pobre da Índia, e pobre permaneceu até a sua morte. Mas, o que me fez parar durante a leitura foi um pedido que Dona Francisca de Aragão - uma dama da rainha e antigo amor de Camões - fez ao poeta. Abaixo transcrevo o trecho da peça no qual ela faz o pedido, e outro onde ele lê as glosas.

FA (Francisca de Aragão)
LC (Luís de Camões)


FA: Enamorai-vos. Não terá de dar mais quem der o amor.
LC: Não é nas grandes fogueiras que mais nos queimamos. Dessas, fugimos. É no lume que julgávamos apagado.
FC: Todos nos queimamos. Também eu amei outros homens, e muito a cada um. É a minha natureza. E este tempo de hoje sei eu que não será diferente daquele em que fui amada por vós, se o que meu coração sentir for igual.
LC: É igual?
FA: Amanhã o saberei. O tempo irá dizer.
LC: Olhai bem, Francisca. Não vamos fugir a cuidados.
FA: Mas porém a que cuidados? (reflete)Aí tendes. Glosai-me este mote.
LC: Que mote?
FA: "Mas porém a que cuidados?" Pelas glosas que dele fizerdes saberei se me ireis ter amor.

Mas porém a que cuidados?

Tantos maiores tormentos
Foram sempre os que sofri,
Daquilo que cabe a mi,
Que não sei que pensamentos
São os pera que nasci.
Quando vejo este meu peito
A perigos arriscado
Inclinado, bem suspeito
Qua a cuidados ou sujeito.
Mas porém a que cuidados?

Glosa segunda ao mesmo.

Que vindes em mi buscar,
Cuidados, que sou cativo?
Eu não tenho que vos dar.
Se vindes a me matar.
Já há muito que não vivo.
Se vindes porque me dais
Tormentos desesperados,
Eu, que sempre sofri mais,
Não digo que não venhais.
Mas porém a quê, cuidados?

Glosa Terceira ao mesmo.

Se as penas que Amor me deu
Vêm por tão suaves meios,
Não há que temer receios,
Que vale um cuido meu
Por mil descansos alheios.
Ter nuns olhos tão formosos
Os sentidos enlevados,
Bem sei que em baixos estados
São cuidados perigosos.
Mas porém, ah! que cuidados!

Trechos estraídos de José Saramago, O que farei com este livro?

Imagem: gettyimages

5 comentários:

Bella disse...

Sua produção está à toda! muito bem... um dia eu chego lá! rsrs

adorei este último post! Sem comentários para a terceira glosa!

Beijinhos!

Priscilla Santos disse...

magnífico!!

Ana Luiza Paes Araújo disse...

Ai, gente!Que bom que vocês gostaram...

André L. Soares disse...

Boa noite! Belo poema. Saramago é mesmo fantástico. Quando ao seu blog, muito bem escrito, numa mescla de bom-humor e crítica aguda. Excelentes mesmo! Depois voltarei para ler mais. Estou sempre dando um ‘passeio geral’ pelos blogs relacionados à arte, principalmente poesia e prosa. Gostei muito do seu blog. Vou adicioná-lo ao meu blog, bem como favoritá-lo no ‘blogblogs’, para que possa visitá-lo mais vezes. Quando puder, visite também meu blog, no endereço: [ http://poemasdeandreluis.blogspot.com ]. Sinta-se à vontade... a casa é sua,... e, gostando,... por favor, também adicione meu blog e, se for o caso, ao seu ‘blogblogs’, ‘techinorati’ etc. Vamos tentar ampliar a rede de intercâmbio artístico-cultural, influenciando-nos e aprendendo mutuamente. Grande abraço!

minrest disse...

Belíssimo blogue que fala do amor de Camões pela bela loira Dona Francisca de Aragão que nasceu na cidade de Quarteira em 1536, aqui no Algarve, onde resido actualmente.Esta bela dama da corte portuguesa foi uma das musas inspiradoras de Camões para escrever os lusíadas.A casa onde ela nasceu existe até hoje,chama-se Estalagem da Cegonha e é uma pousada turística. Dona Francisca de Aragão casou em 8 de Setembro de 1576 com o espanhol Juan de Borja embaixador na Alemanha e Conde de Mayalde.Foi a primeira Condessa de Ficalho,título esse dado pelo rei Filipe I de Portugal (II de Espanha),que na época era rei de Portugal e Espanha.Um de seus filhos, Francisco de Borja e Aragão foi um dos grandes escritores espanhóis e vice-rei do Peru na época também dominado pela Espanha.Dona Francisca de Aragão faleceu em Madrid em 19 de Outubro de 1615.Uma curiosidade é que seu marido D.Juan de Borja(espanhol), está enterrado na igreja de São Roque em Lisboa,e Dona Francisca de Aragão(portuguesa),no Colégio Santo Inácio em Valladolid Espanha.