quarta-feira, 20 de junho de 2007

A transposição do Velho Chico


Vivemos numa democracia (ponto). Entendo que numa democracia todos têm direitos iguais de voz e voto e que, numa disputa justa, vencem os mais votados, ou seja, os escolhidos pela maioria. Até aí, acho que todos concordam. O problema é que, acho eu, os brasileiros não sabem perder, não sabem como se comporta o segundo lugar. Isso serve pra copa, pros relacionamentos amorosos e para a política.
Não estou dizendo aqui que todos devem dizer amém para todas as megalomanias e para todos os despropósitos do governo Lula só porque a maioria o escolheu. Estou é partindo de um principio lógico, e até bíblico, que é o seguinte: "examinai todas as coisas e retende o que é bom" (Tessalonicenses 5:21). Exemplo: não votei no Sérgio Cabral, mas não posso dizer que o governo dele tem me incomodado. Não votei no Lula - nem votaria - e não estou satisfeita com o governo dele, mas não posso falar mal do projeto do governo que trata da Transposição do rio São Francisco.
o povo sempre reclamou das secas do nordeste. Aliás, estou lendo os relatos de um viajante inglês chamado Henry Koster, que fez viagens pelo nordeste do Brasil no início do século XIX, e que relata a seca que teve que enfrentar já naquela época ao tentar chegar "ao Natal" (Natal - RN). Pois, bem. Seca no Nordeste não é um problema dos dias de hoje apenas. E agora que o governo parece ter atentado para o fato e resolvido fazer alguma coisa, apresentando até um projeto aparentemente viável, o povo ta caindo de pau em cima. Tem até padre fazendo greve de fome pra que ninguém mexa com o "o velho Chico". Noutro dia eu disse a um amigo que era a favor da transposição do rio são Francisco,e do projeto de irrigação que beneficiaria PE, PB, RN e CE, e ele me disse com a maior cara de espanto, que eu era a primeira pessoas que ele via falar, pessoalmente, bem deste projeto .
Poxa, a intenção é boa, as ideias são boas, os objetivos são bons. É claro que temos que lembrar que estamos no Brasil e , sendo assim, as coisas têm 50% de chance de enveredarem por caminhos escusos, mas acho que deveríamos examinar as coisas - mesmo que estas sejam pojetos do governo - antes de rejeitá-las e demonizá-las.
Quando cheguei na faculdade, na primeira semana de aula, na chamada semana de calouros, aprendi tudo o que deveria saber para odiar a reforma universitária e os planos diabólicos do governo para acabar com a universidade publica. Mas tudo o que em deram pra ler foi um cartilha do PSTU explicando todos os pontos terríveis da reforma, mas ninguém me ofereceu o anteprojeto da reforma universitária para eu mesma analisá-lo e ver os pontos fracos e fortes. Depois fui ver o tal projeto, e percebi que ele não era de todo ruim - não quero dizer que seja bom.
Falar mal das coisas sem conhecê-las é um vício brasileiro e um erro temeroso.


Imagem do site: http://www.tresmarias-mg.com.br/pages/f_rios%E3ofrancisco.htm

2 comentários:

Carlos disse...

Acho que ninguém é contra a possibilidade de melhorar o problema da seca nos estados nordestinos. Pelo menos ninguém com um mínimo de sanidade. O problema que alguns apontam é que, como mais uma desses projetos feitos a toque de caixa (a idéia já existia a um tempo relativamente grande, mas os estudos para a implantação do projeto são recentes), a solução pode se tornar pior que o problema.
A seguir transcrevo algumas informações da Fundação Joaquim Nabuco, que ajudam a dimensionar melhor a questão:
Na tentativa de solucionar o problema de vazão do rio, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco - CHESF, construiu a represa de Sobradinho que manteve, de certa forma, a vazão do rio em patamares adequados para a geração de energia no complexo de Paulo Afonso. Mesmo assim, dadas as secas periódicas que assolam a região, a referida represa tem operado, com certa freqüência, em níveis críticos, chegando a voltarem à tona as ruínas da cidade de Remanso (alguém aí lembra da música do Sá e Guarabira?) no Estado da Bahia, que ficou submersa com a construção dessa represa e que foi reconstruída em uma cota mais alta, longe das águas.
Ora, se a antiga Remanso volta a aparecer no período de seca, isso nos leva a crer que o leito do rio praticamente volta a ser o que era antes de ser represado e que as águas, antes acumuladas para resolver os problemas de geração de eletricidade e de irrigação, não atendem mais àquelas finalidades.
Informações colhidas por engenheiros da CHESF, mostram que na época das secas a represa de Sobradinho chega a ter um volume acumulado de água de apenas 13% de sua capacidade. Imaginem se, uma vez instalado esse quadro de penúria hídrica, tivéssemos ainda que subtrair mais água do rio para atender ao abastecimento do Nordeste. Simplesmente não haveria água suficiente para a geração de eletricidade, a irrigação e o abastecimento das populações ribeirinhas.
O Rio São Francisco, hoje, possui uma vazão média em torno de 2.800 m³ de água por segundo, com o comprometimento de 2.100 m³ por segundo pela CHESF, para geração de energia elétrica, sobrando, por conseguinte, 700 m³ por segundo de água, previstos para serem utilizados nos processos de irrigação. Isso corresponde a uma capacidade de irrigar aproximadamente 1.000.000 de ha nas margens do São Francisco, que é o potencial irrigável do vale. Outros usos das águas do São Francisco, como o desvio para a irrigação de outros estados, implicariam na diminuição desse volume, pondo em risco todo o processo de irrigação praticado no vale, como também o de geração de energia elétrica ali existente. Esta espécie de "conta bancária" do uso das águas já nos parece operar no vermelho.
Há vários outros estudos que podem ser encontrados e que examinam com muito cuidado a questão, prevendo que o problema apresenta uma solução muito mais complicada do que apenas o que seria relativo a mera transposição do Velho Chico.
Não estou dizendo que a transposição não seja possível, nem que não seja válida. Só acho que o problema deve ser estudado com mais calma e profundidade. Afinal, um desastre ecológico, depois de instalado, só vai tornar a vida de todo mundo que vive a volta do rio, muito pior do que já está agora. Então, que venham antes os estudos de meio ambiente e as respostas as questões levantadas pelo pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (João Suassuna - que não se perca pelo nome).

Ana Luiza Paes Araújo disse...

hum, não tinha pensado nisso, não tinha visto a coisa por este ponto de vista. Se é assim, concordo com você. Mas acho que seria uma boa poder levar água pra aquele povo todo lá do Nordeste.
O problema de esperar os estudos neste país é o mesmo de esperar pela justiça, demoooooooooooooora...